Fitch revê outlook de Cabo Verde para positivo e projeta dívida em queda

A Fitch mudou a perspetiva de Cabo Verde para positiva. A agência prevê queda da dívida do Governo e aponta turismo, disciplina orçamental e reservas como pilares — mas mantém alertas.
A Fitch reviu o outlook de Cabo Verde, passando de estável para positivo, e reforçou a ideia de que a trajetória da dívida pública está a melhorar.
No relatório divulgado hoje, a agência afirma que a dívida pública segue “firmemente em declínio” e estima que o rácio da dívida do Governo possa cair para cerca de 85% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2027.. O documento contextualiza o caminho: durante a pandemia, o rácio terá atingido um pico de 147% e a Fitch calcula que tenha ficado em cerca de 100% em 2025.
A revisão para positiva significa, na leitura da Fitch, que existe margem para melhoria da notação soberana nos próximos meses ou anos, desde que as tendências económicas e orçamentais continuem a ser favoráveis.. Ainda assim, a classificação “B-” permanece inalterada, dentro da categoria de investimento especulativo, sinalizando que Cabo Verde continua vulnerável a choques externos e às oscilações da economia global.
Entre os fatores que sustentam a decisão, a agência destaca o desempenho do sector do turismo, apontado como um motor central da economia cabo-verdiana.. O relatório relaciona a força do turismo com crescimento, emprego e entrada de divisas, elementos que ajudam a reforçar as contas externas e a capacidade de financiamento do país.. Para além disso, a Fitch menciona a recuperação económica pós-pandemia como parte do quadro que permitiu reorganizar receitas e estabilizar indicadores.
Num momento em que os mercados tendem a olhar para a consistência fiscal, a Fitch reforça a importância da disciplina orçamental.. A agência refere também que o crescimento económico deverá continuar sólido, embora mais moderado do que nos anos imediatamente a seguir à recuperação da covid-19.. Ou seja: não é uma euforia de curto prazo, mas uma evolução que procura manter tração sem perder controlo sobre custos e compromissos financeiros.
Outro ponto apontado está ligado às contas externas e às receitas fiscais.. A Fitch indica que a estabilidade macroeconómica, somada à melhoria das contas externas e ao aumento da arrecadação, tem permitido ao Governo consolidar gradualmente a posição financeira.. Há ainda a dimensão monetária: a manutenção de reservas internacionais consideradas adequadas, apresentada como relevante para sustentar a paridade cambial do escudo cabo-verdiano com o euro.
A solidez cambial, neste contexto, não é apenas um detalhe técnico.. Para empresas que dependem de custos e preços associados ao euro, uma âncora monetária estável reduz incertezas e pode facilitar planeamento.. Para famílias e trabalhadores do sector do turismo, a previsibilidade também conta, já que a atividade tende a reagir rapidamente a mudanças no poder de compra de visitantes e investidores.
Apesar do tom mais favorável, a Fitch não “desliga” os riscos.. A agência volta a sublinhar a elevada dependência do turismo internacional, a vulnerabilidade a choques climáticos e a exposição às flutuações da economia europeia — mercado que concentra a origem de muitos turistas e parte do capital que chega ao arquipélago.. O relatório também mantém o foco em duas travas recorrentes: níveis ainda elevados de dívida e limitações estruturais que, em conjunto, restringem a evolução da classificação soberana.
O que a mudança de outlook sugere para o país
A passagem de estável para positivo pode ser lida como um sinal de que a melhoria tem “base” e não é apenas conjuntural.. Para Cabo Verde, isso abre espaço para que esforços de consolidação orçamental e continuidade na gestão macroeconómica sejam reconhecidos no cálculo de risco.. Mas o próprio relatório deixa um recado: a trajetória precisa de resistir a fatores externos, do clima às oscilações da Europa.
Dúvidas permanecem: dívida e choques externos
Mesmo com a projeção de queda do rácio da dívida até 2027, a agência mantém a avaliação de que o país ainda está longe de ficar “imune” a adversidades.. A evolução da dívida, as receitas, as reservas e a capacidade de suportar choques continuam a ser o centro do escrutínio.. Em termos práticos, a direção da política económica e a resiliência do turismo vão ser determinantes para transformar a perspetiva positiva em melhoria efetiva da notação.
Para já, Misryoum acompanha este tipo de atualização de crédito como um termómetro: mostra onde o país está a ganhar tração e onde ainda há fragilidades que não desaparecem por decreto.