A indiferença é o fogo silencioso que consome os nossos livros
Num passeio por Lisboa, o Professor Teodoro reflete sobre a fragilidade da memória. Entre crónicas e encontros, surge a questão: será a indiferença o método mais eficaz para destruir o conhecimento, muito além das fogueiras?
O Professor Teodoro Ramalho atravessa Lisboa como quem percorre as páginas de um atlas pessoal.. Entre a sombra dos carvalhos no Príncipe Real e a escadaria em caracol da Biblioteca de São Lázaro, o seu caminho é feito de encontros improváveis.. Hoje, contudo, a sua bússola aponta para o Palácio Galveias, onde o pátio interior oferece o refúgio ideal para uma leitura solitária.. O bolso do casaco esconde uma coletânea de crónicas de Eduardo Prado Coelho, um volume que transporta a urgência de outros tempos.
À saída da Vila Berta, o encontro com o Zé Gaspar, um pedinte cuja erudição desafia as expectativas da rua, interrompe a marcha.. Enquanto o cão Tejo fareja a presença familiar do tabaco, a conversa vira-se para a crueza da atualidade e a natureza do saber.. “Um burro carregado de livros vira doutor?”, provoca Zé Gaspar, ecoando o ceticismo de quem observa a vida passar.. A troca de ideias sobre a “evanescência da história” de Baudrillard e o vazio da perfeição técnica marca um momento de pausa, onde o ruído do mundo parece silenciar-se perante a lucidez de dois homens que, apesar de mundos distintos, partilham o mesmo apego pela reflexão.
O peso de um sótão em chamas
Instalado no Palácio Galveias, Teodoro abre o livro na página 122.. O relato de um incêndio em Alfama, que consumiu um sótão repleto de livros e memórias, dispara uma inquietação profunda.. Para Teodoro, a tragédia não reside apenas na perda material, mas na anulação de identidades acumuladas.. Como escreve o cronista, “é sempre aos bocadinhos que se morre”.. A perda de papéis, cartas e recortes é uma forma de erosão da própria história de vida, deixando apenas cinzas onde antes habitavam esperanças e planos.. A menção a David Mourão-Ferreira sublinha a rapidez com que os anos se evaporam num segundo de combustão.
Esta fragilidade do objeto impresso atravessa a história da literatura.. O gesto de Pepe Carvalho, personagem de Manuel Vázquez Montalbán, ao queimar livros por niilismo, contrasta com a purga imposta pelo padre e pelo barbeiro no Dom Quixote, onde o fogo era visto como uma cirurgia ao delírio do cavaleiro.. Enquanto uns buscam a libertação no fogo, outros procuram a sanidade.. No entanto, a observação do Professor Teodoro aponta para um perigo mais insidioso do que o fogo ou a censura: a indiferença.
A morte silenciosa das bibliotecas
Vivemos num tempo em que a destruição não precisa de labaredas nem de listas de proibição.. A verdadeira ameaça ao conhecimento reside na pasmaceira, na falta de curiosidade e no abandono gradual das bibliotecas ao pó.. Quando os livros deixam de ser lidos ou valorizados, a sua morte é metódica e invisível.. Não há o escândalo da censura que mobiliza as consciências, nem o alvoroço do fogo que exige intervenção imediata; existe apenas o silêncio de estantes esquecidas.
Este fenómeno reflete uma mudança estrutural na sociedade, onde a velocidade da informação atropela o tempo necessário para o aprofundamento.. A experiência de Teodoro, sentado no pátio do Galveias, serve como um lembrete de que proteger a cultura exige mais do que guardá-la em edifícios; exige uma atenção constante contra a apatia.. O futuro dos livros não está sob ameaça de decretos, mas sob a sombra da nossa própria negligência em manter a chama da leitura acesa entre as novas gerações.