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The Legendary Tigerman e a fala de Joey Ramone em NYC

Paulo Furtado, do The Legendary Tigerman, relembra a presença de Joey Ramone nos primeiros concertos em Nova Iorque e fala da evolução do seu percurso artístico.

Nova Iorque teve um efeito de ignição no percurso do The Legendary Tigerman, e Paulo Furtado recorda um detalhe que soa a promessa. “Joey Ramone was on our first NYC shows”, rememora, descrevendo como o músico norte-americano teria dito que a banda acabaria por tocar na festa do próprio aniversário.

A história remete para os anos em que Furtado emergia em Coimbra, na década de 1990, com os Tedio Boys.. Nessa fase, o caminho foi feito de confronto, impulso subterrâneo e uma progressão rápida até palcos fora de Portugal, incluindo digressões pelos Estados Unidos.. Era um ritmo que exigia energia constante e, ao mesmo tempo, uma fome de controle sobre o que acontecia em palco.

A transição para o formato de um único homem foi, segundo o próprio, consequência do desgaste das dinâmicas de grupo e de uma aproximação cada vez mais forte à força crua do delta blues e ao punk.. O que começou quase como acaso foi ganhando contornos de obsessão: som, performance e direção artística como partes do mesmo trabalho.

Neste contexto, a lembrança sobre Joey Ramone não é apenas um pormenor folclórico. Ela ilustra como, em certas redes do rock, um gesto pode marcar a trajetória e reforçar a sensação de estar a subir para um novo patamar.

Com o tempo, a intensidade que caracterizava o projeto foi cedendo espaço a outras formas de criação.. O The Legendary Tigerman passou a dialogar com colaborações, além de expandir o trabalho para o cinema e para bandas sonoras.. Mesmo com essa abertura, o artista manteve uma linha de autonomia sobre a própria obra, como se a evolução também fosse uma maneira de não perder a assinatura.

Mais recentemente, uma mudança maior aconteceu fora dos palcos.. A paternidade trouxe uma nova calibragem ao modo como Furtado organiza prioridades e tempo.. Se antes defendia que a arte tinha de estar no centro absoluto da vida, agora fala de hierarquias diferentes, aprendendo a equilibrar criação com cuidado, urgência com presença.

O ponto-chave, no entanto, não desaparece: a faísca continua a ser a necessidade de fazer algo novo. Só que, com o passar do tempo, essa urgência passou a conviver com uma clareza mais silenciosa, sem apagar a energia que fez do projeto um caminho exigente.

Quando a vida pessoal muda, o trabalho quase sempre muda junto, mesmo que a intenção artística permaneça. E é aí que esta história ganha peso: mostra como uma carreira pode evoluir sem deixar de ser verdadeira, apenas mais completa.

No fim, Furtado deixa uma ideia central sobre o valor da criação para si.. Diz que a arte salvou a vida, e que hoje continua a moldá-la, agora não necessariamente como uma jornada solitária.. Misryoum destaca este tipo de testemunhos porque ajudam a perceber que os projetos culturais não nascem só de estilo ou técnica, mas também de decisões sobre como se vive.