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Sanchéz e a mobilização progressista global: o que está em jogo na IS

Pedro Sanchéz convocou um encontro com figuras de vários continentes sob a ideia de “mobilização progressista”. Por trás do convite, cresce o debate sobre a identidade e o rumo da Internacional Socialista.

Pedro Sanchéz, presidente do governo espanhol e líder socialista, avançou com uma “mobilização progressista” que reuniu figuras europeias, africanas e americanas. O evento, porém, reacendeu um velho debate: qual é, afinal, a linha da Internacional Socialista.

A chamada não surge no vazio.. A Internacional Socialista (IS) nasceu com uma identidade clara ao longo do século XX, com resistência ao comunismo da órbita soviética e rejeição da prática terrorista defendida por setores revolucionários marxistas.. Ao mesmo tempo, construiu-se como uma plataforma que pretendia proteger a democracia liberal e a convivência entre setores público e privado — uma distância assumida do modelo soviético e também do trotskismo.

Mas o próprio percurso histórico da IS, segundo a leitura que domina entre críticos do projeto atual, teria alterado essa matriz original.. A incorporação de partidos após a implosão do bloco soviético teria, progressivamente, diluído a ideia fundadora.. O resultado descrito é duro: uma entidade mais “moldável” às circunstâncias do que coerente com um programa.. E quando a liderança passa a ser o principal motor de alianças, a ideologia tende a perder peso — pelo menos, é assim que muitos observadores interpretam a fase contemporânea.

Há ainda dois movimentos que, no entendimento desses críticos, mudaram a IS em terreno político delicado.. O primeiro foi a transformação de partidos únicos que surgiram no rescaldo da descolonização na Ásia e em África e que, em larga medida, aderiram à IS.. O segundo foi a aproximação a movimentos e partidos ligados ao universo sul-americano, sobretudo com agendas que, em diferentes momentos, encontraram pontos de contacto com governos marcados por autoritarismo e restrições democráticas.

Foi nesse cruzamento que se formou, na visão descrita no texto de base, uma espécie de “impulso progressista” que acabou por normalizar, ao menos tacitamente, regimes com credenciais democráticas frágeis.. A lista de exemplos mencionada aponta para governos como os de Venezuela, Cuba, Argentina e outros na região, estendendo-se mais tarde à Europa com narrativas consideradas falsas: a ideia de que a “terceira via” teria sido um desvio neoliberal e a crença de que a tecnologia criaria, por si, novas massas de “oprimidos” a demandar novas respostas políticas.

Nesse cenário, o encontro em Barcelona aparece como um símbolo: uma reunião que pretende produzir linguagem comum, mas que, para quem está atento, também revela escolhas.. O texto descreve a presença de partidos e lideranças com influência própria, como organizações relevantes de África do Sul e Índia, mas sublinha que o objetivo não seria tanto formular um roteiro de desenvolvimento, e sim reforçar a imagem e o alcance político do bloco.

A presença de Lula surge, nesse recorte, como elemento de contraste.. Há reconhecimento de que o ex-operário foi capaz de implementar políticas de combate à pobreza.. Ainda assim, a crítica insiste no que faltou: dignidade plena e futuro sustentado para além da dimensão social imediata.. O texto também associa Lula a um problema maior, ligado a corrupção e ao que vê como transformações na democracia brasileira, sinalizando que a convivência entre “progressismo” e práticas controversas tem custado credibilidade ao projeto.

Ao mesmo tempo, o papel de Sanchéz é apresentado como ambivalente.. De um lado, a capacidade de navegar alianças difíceis e de “encostar-se” a diferentes mares políticos.. De outro, a acusação de que a ambição pessoal e a necessidade de sobreviver no xadrez institucional teriam empurrado o PSOE para decisões que corroeriam a coerência.. A leitura é que, entre eleições, acordos e instabilidade, a linha foi sendo ajustada ao curto prazo, inclusive em momentos em que as relações com atores politicamente sensíveis se tornaram parte do cálculo.

Para o leitor, a questão central não é apenas quem esteve em Barcelona, mas o que acontece quando “mobilização progressista” vira etiqueta para alianças amplas.. Em termos práticos, a perda de referência ideológica tem efeitos diretos: dificulta distinguir prioridades, torna o discurso mais ruidoso do que verificável e, sobretudo, enfraquece a capacidade de defender direitos quando os parceiros políticos não partilham os mesmos limites democráticos.

Também há um fator de contexto que ajuda a explicar por que este tipo de encontro ganha tração.. A política europeia convive com pressões externas — desde guerras e reconfigurações geopolíticas até ao peso de potências que oferecem financiamento, mercados e influência.. Nesse tabuleiro, lideranças progressistas disputam o espaço narrativo: quem acusa os EUA, quem enfatiza a soberania e quem tenta apontar a “nova correlação de forças”.. Só que, quando a coerência democrática perde terreno, o custo tende a aparecer dentro das próprias sociedades, na forma de desconfiança e cansaço.

A crítica final do texto é, em essência, uma disputa de identidade.. A IS, diz-se, não deveria virar abrigo de tudo para todos.. Se os princípios originais — democracia, liberdade, justiça social e um compromisso claro com políticas públicas — forem tratados como acessórios, a organização pode ganhar membros, mas perder sentido.. E quando uma plataforma global começa a parecer mais um palco de alinhamentos do que uma casa de ideias, a pergunta deixa de ser “quem compareceu” e passa a ser “o que a IS realmente defende”.