Mariliz Pereira Jorge e os ataques nas redes: depressão no centro

A colunista Mariliz Pereira Jorge denuncia ofensas e tentativas de desqualificação ligadas ao debate sobre depressão e opinião.
Escrever uma coluna num jornal de grande circulação é um exercício diário de paciência e, acima de tudo, de antropologia reversa.. Não importa se o tema é a geopolítica complexa da Venezuela, a tragédia da violência doméstica, o alcoolismo, o mercado imobiliário ou uma receita de pudim.. O desfecho é sempre o mesmo: um desfile de cavalheiros (e algumas damas, para não dizerem que não há diversidade no ódio) prontos para me acusar de tudo,
menos de ser monótona.. É o tipo de leitor que detesta tudo o que escrevo, mas são os mais fiéis.. Eles gostam de me odiar de pertinho e de serem os primeiros a me odiar nos comentários.. A criatividade desse povo é fascinante.. Num dia sou acusada de “apoiar” um genocídio e de “desejar” a morte de mulheres e crianças.. Sério, as pessoas enlouqueceram.. No outro, sou uma “feminista radical” ou, dependendo da conveniência do
parágrafo, “não sou feminista o suficiente”.. Já fui chamada de “velha”, criticada por não ter filhos e, o meu favorito, acusada de ter “inveja do pênis” porque eu “defendo mulheres”.. Sim, leram bem.. Freud explicaria, mas o meu psicanalista prefere rir comigo a analisar a loucura alheia.. O cardápio de ofensas é variado: recebo dinheiro do PT, da extrema direita, obedeço cegamente aos meus chefes ou escrevo apenas o que o meu marido manda.. É
o eterno dilema da mulher com opinião: para o hater médio, o nosso cérebro deve ser necessariamente um anexo de algum comando externo, de preferência masculino.. Jamais uma ideia própria, sou apenas uma ventríloqua de interesses escusos.. O ponto mais baixo deste abismo civilizatório começou a pipocar mês sim, outro também.. Alguém com tempo demais e escrúpulos de menos decidiu usar a minha saúde mental para me atacar.. Sou diagnosticada com depressão há 12 anos
—estou muito bem, obrigada.. Fui uma das primeiras a falar abertamente sobre isto num jornal, porque acredito que a transparência quebra estigmas.. Mas para o tribunal das redes sociais, a doença é um salvo-conduto para a desqualificação intelectual.. É irônico.. Uma pessoa que vive com depressão e se trata está, geralmente, muito mais equilibrada emocionalmente do que o sujeito que gasta o seu tempo a envenenar caixas de comentários.. Graças à indústria farmacêutica, a bons
analistas, à família e aos amigos, a depressão pode ficar sob controle.. Um “depressivo”, como sou chamada de forma pejorativa por esse sujeito nas mais diversas situações, trabalha, viaja, se diverte e, pasme, goza.. A medicina evoluiu o suficiente para não nos deixar como samambaias murchas, sem sentimentos, desejo ou orgasmos.. Pessoas com depressão, quando bem medicadas, sentem tudo o que qualquer ser humano sadiozinho experimenta: raiva, euforia, tristeza, tédio.. Jamais apelo às minhas fragilidades
emocionais para justificar o que penso e escrevo.. Usar uma condição clínica é de uma baixeza que não me atinge pessoalmente —o meu escudo é feito de anos de terapia—, mas me enoja pelo que representa.. Para outros, tratar a depressão como um desvio de caráter pode ser um “gatilho” (odeio a palavra, mas aqui aplica-se) para recaídas e desestabilização.. É o cúmulo da desumanidade disfarçada de crítica política.. No fundo, o problema nunca foi
a minha química cerebral, mas sim o fato de eu ocupar um espaço que eles acham que não me pertence.. Entre a minha depressão tratada e a psicopatia digital de quem me ataca, sei bem quem é que precisa aumentar a dose do remédio.