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Crise nos materiais de construção trava o setor em Angola

A alta nos preços dos materiais de construção em Angola revela uma dependência crítica de importações e falta de indústria local, travando obras e pressionando o mercado imobiliário no país.

A escalada dos preços dos materiais de construção voltou a expor uma fragilidade estrutural da economia angolana: a ausência de uma base industrial capaz de responder à procura interna.. Especialistas do setor convergem na ideia de que este gargalo não é apenas uma reação à inflação passageira, mas o reflexo de décadas de dependência externa e falta de incentivos produtivos que agora sufocam o desenvolvimento imobiliário e a autoconstrução.

O impacto da dependência e a especulação

A leitura dominante no setor é clara: a inexistência de uma indústria sólida de materiais de construção está na origem da pressão inflacionária, agravada por uma fiscalização considerada insuficiente pelos agentes económicos.. O exemplo do cimento no final do ano passado, quando o saco de 50 kg atingiu os 10.000 kwanzas no retalho — mais do dobro do valor de fábrica — serviu como um alerta sobre as distorções graves existentes na cadeia de distribuição.. Esse fenômeno não afeta apenas os grandes projetos, mas atinge diretamente o cidadão comum que tenta erguer ou reformar a própria casa.

Para Luís Salvador, da AECCOPA, o impacto desta escalada é devastador no terreno.. Muitos operadores foram forçados a abandonar a atividade ou a procurar nichos alternativos para sobreviver à instabilidade.. Quando os pequenos empreiteiros perdem fôlego, a autoconstrução, que é o motor da habitação para a classe média, simplesmente trava.. Dados do INE, que indicavam cerca de 80% das obras paralisadas no país no final do terceiro trimestre, desenham um cenário de estagnação que afeta diretamente o emprego e a dinâmica econômica local.

Caminhos para a autonomia industrial

A saída para este impasse, segundo a visão coletiva dos especialistas da Misryoum, exige uma mudança radical na política de fomento industrial.. Não basta apenas controlar o preço na ponta final; é necessário financiar o capital produtivo.. A banca comercial tem um papel determinante ao permitir, via crédito bonificado, que o setor fabril nacional ganhe escala e consiga reduzir a sua dependência de divisas para a aquisição de matérias-primas importadas.

A desvalorização do kwanza e a escassez de divisas criam um ciclo vicioso onde o custo de produção só aumenta, tornando o produto final inacessível.. Se Angola quer reverter essa tendência, a construção civil deve deixar de ser vista como um setor periférico e passar a ser encarada como uma prioridade estratégica do Executivo, com incentivos fiscais específicos para a produção interna de insumos básicos como aço, areia, brita e argamassas.

Além disso, a estabilização do mercado exige um olhar atento sobre a logística interna.. Muitas vezes, o preço final do material é inflacionado por custos logísticos de transporte, o que reforça a necessidade de investimentos estruturais nas vias de acesso às zonas industriais e canteiros de obra.. Enquanto o país não conseguir produzir localmente o que consome, o setor da construção continuará refém das oscilações cambiais globais, impedindo que o sonho da habitação própria seja uma realidade sustentável para as famílias angolanas.