Crise da educação em Angola: escolas viram lojas

Misryoum analisa a deterioração do ensino em Angola, onde escolas se comportam como comércios e professores perdem autonomia e respeito, gerando indisciplina e queda de valores na sociedade.
A crise da educação em Angola se evidencia cada vez mais nas escolas que operam como verdadeiros comércios. Professores são tratados como prestadores de serviço diante de um aluno‑cliente.
O modelo comercial das escolas
Esse modelo mercantilizado compromete a missão essencial da educação: formar cidadãos críticos.. Quando a prioridade é o faturamento, a disciplina desaparece, e o respeito mútuo entre professor e aluno se dilui.. O som das campainhas das escolas ecoa como sinal de cobrança, não como convite ao aprendizado.. As políticas financeiras impostas pelas direções criam barreiras que afastam famílias de baixa renda, ampliando a desigualdade.. Sem rigor, as avaliações perdem credibilidade, e o currículo torna‑se superficial.
Historicamente, o país enfrentou índices de analfabetismo superiores a 70% logo após a independência, agravados pelo conflito armado.. A reforma educativa de 2009/2010 buscou ampliar o acesso, inaugurando milhares de escolas públicas e privadas.. Contudo, a expansão rápida não foi acompanhada por investimentos em formação docente ou infraestrutura.. O legado de escassez ainda pesa sobre o sistema, que agora lida com a mercantilização ao invés de consolidar qualidade.
Para muitas famílias, a escolha entre pagar taxas exorbitantes ou retirar os filhos da escola tornou‑se cotidiana.. Mães relatam que o medo de perder o futuro dos filhos supera a indignação diante da falta de recursos.. Em casas onde o dinheiro chega apenas no fim do mês, o professor muitas vezes é culpado pelos resultados escolares, mesmo sem controle sobre o conteúdo ofertado.. Essa pressão alimenta o desrespeito nas salas de aula.
A desvalorização docente afeta diretamente os resultados de aprendizagem.. Quando professores não podem exercer sua autoridade, a disciplina se fragmenta e o ambiente perde foco.. Alunos, acostumados a serem “clientes”, adotam postura prepotente e desafiam normas básicas de convivência.. A consequência é um ciclo de evasão escolar e baixa performance em avaliações nacionais.
Em comparação com países vizinhos que investem em políticas de formação contínua e mantêm tarifas escolares acessíveis, Angola demonstra um retrocesso.. Enquanto a Tanzânia, por exemplo, estabilizou suas taxas e reforçou a capacitação de professores, Angola vê o aumento constante de custos e a precarização do trabalho docente.. Esse contraste evidencia que o modelo comercial não é inevitável, mas resultado de escolhas políticas.
As autoridades educacionais precisam reverter essa tendência, estabelecendo normas que limitem cobranças abusivas e garantam salários dignos.. Um plano de auditoria independente pode fiscalizar a relação entre escolas e famílias, assegurando transparência.. Investir em programas de valorização docente, como carreiras meritocráticas, pode restaurar o respeito à profissão.
Em síntese, a crise da educação em Angola decorre da transformação das escolas em negócios e da consequente perda de autoridade dos professores. A situação exige ação imediata para proteger o direito ao ensino de qualidade e reconstruir os valores cívicos da sociedade.