Clara Raposo diz: euro digital é complementar e banca segue

Em entrevista, Clara Raposo defende que a inovação deve caminhar com estabilidade. Para a vice-governadora, o euro digital será complementar aos depósitos e os bancos continuam centrais no sistema.
Clara Raposo, vice-governadora do Banco de Portugal, traça um retrato em que a tecnologia acelera a banca, mas não a substitui — e em que a prioridade é manter a estabilidade financeira enquanto a inovação avança.
Em entrevista, a dirigente reforça que a digitalização já não é apenas uma mudança de “canais” para contactar clientes.. A transformação chega aos bastidores: reorganiza processos internos, influencia decisões e altera a forma como o risco é identificado, avaliado e gerido.. Ao mesmo tempo, aumenta a pressão competitiva em áreas específicas, sobretudo nos pagamentos, onde surgem novos serviços e novos prestadores.. Para os bancos tradicionais, isso obriga a repensar eficiência, personalização da oferta e capacidade de integrar serviços em ecossistemas mais amplos.
A leitura de Clara Raposo é direta: embora existam riscos a acompanhar o avanço tecnológico, não faz sentido opor inovação e estabilidade como se fossem objetivos incompatíveis.. A questão não é escolher um lado, mas garantir que a regulação, os instrumentos macroprudenciais e a supervisão acompanham a evolução do setor — especialmente na monitorização dos riscos e na capacidade do sistema responder quando algo corre mal.. “Preservar a estabilidade enquanto se inova”, resume a visão apresentada.
A ambivalência está bem no centro do debate atual.. A digitalização pode trazer ganhos de rapidez e eficiência, mas também pode alterar o perfil do risco.. Entre os exemplos, a vice-governadora aponta o aumento da exposição a riscos cibernéticos, operacionais e reputacionais.. Em linguagem prática, isso significa que a fronteira entre “falhar por atraso” e “falhar por falha tecnológica” se tornou mais curta: os sistemas são mais interligados, as dependências são mais tecnológicas e, por isso, o impacto de um incidente pode ser mais rápido e mais amplo.
Para lidar com esse cenário, Misryoum destaca a ênfase na supervisão reforçada.. Clara Raposo refere que, nas áreas de supervisão, as expectativas têm sido elevadas em temas como governação, controlo interno, resiliência operacional, cibersegurança e uso de inteligência artificial, num alinhamento com enquadramentos europeus como os regulamentos DORA e da Inteligência Artificial.. Na prática, isso traduz-se em exigências para que a inovação não chegue “a qualquer custo”, mas com bases sólidas para resistir a falhas e cumprir padrões de proteção.
O tema “level playing field” — a ideia de que deve existir igualdade de condições entre diferentes operadores — surge como outro ponto sensível.. Clara Raposo defende que o princípio que orienta a atuação do Banco de Portugal, em linha com a abordagem europeia, é o de “mesmo risco, mesma regulação”, ajustado à natureza e complexidade da atividade.. A sua lógica é que não faria sentido impor exatamente o mesmo enquadramento prudencial a entidades com perfis de risco diferentes — por exemplo, quando não captam depósitos nem assumem riscos comparáveis aos da banca tradicional.. Ao mesmo tempo, alerta para o risco de “arbitragem regulatória”, isto é, a possibilidade de atividades semelhantes serem tratadas de forma demasiado desigual.
A conversa alarga-se ainda para a intermediação financeira fora do perímetro bancário.. Misryoum acompanha a preocupação com o crescimento dos fundos de crédito e o debate sobre se isso corresponde a uma nova forma de “shadow banking” na Europa.. O enquadramento descrito assenta numa comparação com os Estados Unidos, onde o private credit tem crescido e pode ter um perfil mais sistémico em contexto de maior alavancagem e interligação com bancos.. Na Europa, o peso do sistema bancário mantém-se predominante, mas a vice-governadora considera que os desenvolvimentos devem ser acompanhados no quadro mais amplo da intermediação não bancária, com foco em monitorização, transparência e mitigação de riscos que possam atuar como canais de contágio.
Num dos segmentos mais observados do debate, Clara Raposo aborda o euro digital.. A posição apresentada é clara: o euro digital será complementar, e não substituto, do numerário e dos depósitos bancários.. A justificação passa por preservar o papel da moeda do banco central no funcionamento dos sistemas de pagamentos e reforçar a autonomia estratégica e a eficiência económica da Europa, permitindo pagamentos seguros e universais num mundo cada vez mais digital.. Para mitigar riscos de desintermediação bancária, o desenho do projeto prevê limites à detenção e ausência de remuneração, além de a privacidade ser tratada como elemento central, compatibilizando confidencialidade com exigências legais de prevenção do branqueamento de capitais e do financiamento do terrorismo.
A pergunta que fica — e que Misryoum sublinha como decisiva para quem vive a banca diariamente — é o que isto significa para o futuro próximo do cliente e para o papel social da instituição bancária.. Clara Raposo admite que podem surgir novos operadores, como fintechs, grandes plataformas tecnológicas ou stablecoins, capazes de reduzir o papel dos bancos em funções mais específicas, nomeadamente pagamentos e serviços financeiros mais padronizados.. Ainda assim, não vê um “esvaziamento” do sistema: fala antes numa redistribuição de funções no ecossistema.. Há, porém, um risco adicional que a vice-governadora aponta com cautela: a maior dependência e concentração em fornecedores tecnológicos externos.
Quanto ao “banco típico” daqui a 10 ou 15 anos, o fio condutor volta a ser a continuidade.. Clara Raposo defende que os bancos devem permanecer centrais porque continuam a ser o principal canal pelo qual a liquidez se transforma em crédito e em atividade económica.. Também sublinha que, pela sua natureza e tratamento regulatório, são as entidades com capacidade de criar moeda “verdadeira”, cumprindo funções essenciais que não desaparecem com a tecnologia.. A sua conclusão é que, se não existirem bancos no futuro, teriam de ser “inventados de novo” — tamanha é a importância para a confiança entre agentes económicos.
Apesar do otimismo, há uma nota de realismo sobre o risco.. Misryoum registra que o sistema financeiro em Portugal está mais resiliente do que há cerca de uma década, sobretudo por estar mais capitalizado, com melhores níveis de liquidez, governação mais robusta e supervisão mais exigente.. A resposta a choques recentes — incluindo a pandemia e a incerteza associada a conflitos armados, tarifas e mudanças nas taxas de juro — é usada como exemplo de uma maior capacidade de absorver impactos.. Para o horizonte, os riscos apontados passam por variáveis geopolíticas e macroeconómicas, com potencial para correções abruptas, além de riscos tecnológicos ligados a segurança e soberania e de alterações climáticas que podem intensificar-se caso não se avance para uma economia global mais sustentável.