Cabo Verde News

Cabo Verde perante a escravidão: o desafio de encarar um passado silenciado

Cabo Verde enfrenta o desafio de confrontar o seu passado colonial e o legado da escravidão. A Misryoum analisa como a sociedade lida com memórias difíceis.

Cabo Verde encontra-se num momento de reflexão profunda sobre o seu papel histórico na escravidão, um crime que a ONU classifica como uma violação grave contra a humanidade.. Apesar da existência de estruturas institucionais, como o Comité Nacional da “Rota do Escravo”, a investigação e o debate público sobre esta temática permanecem, em grande medida, limitados.

O peso da história na identidade nacional

Historicamente, a economia e a demografia de Cabo Verde foram moldadas pelo tráfico transatlântico, com as ilhas a servirem como um ponto crucial de transbordo.. A Cidade Velha, classificada como Património Mundial da UNESCO, é o testemunho físico dessa era.. No entanto, a narrativa turística tende a privilegiar uma visão romantizada e arquitetónica, suavizando a brutalidade que fundou aquele espaço.. A Misryoum observa que, ao dissociar o encanto das ruínas da violência da escravidão, perde-se a oportunidade de transformar esses locais em laboratórios de educação pública.

Para avançar, o país precisa de realizar um verdadeiro “exercício de espelho”.. Isso implica confrontar como as lógicas coloniais ainda operam nas relações contemporâneas e nas nossas próprias construções de identidade.. A tendência para enfatizar a “morabeza” e a mestiçagem tem, por vezes, servido para ocultar disparidades socioeconómicas e silenciar feridas que ainda não foram totalmente tratadas no seio da sociedade cabo-verdiana.

Para além do trauma: o desafio pós-colonial

A resolução da ONU, ao tratar a escravidão como uma norma de natureza *jus cogens*, abre caminho para discussões sobre reparação, mas o progresso exige mais do que diplomas internacionais.. É fundamental questionar por que razão a “antinegritude” ainda persiste no quotidiano, manifestando-se no tratamento dado a imigrantes da costa ocidental africana ou na rejeição estratégica de certas raízes culturais em prol de uma excecionalidade mal compreendida.. Quando uma sociedade africana se tenta distinguir negativamente de outras, ela permanece, inevitavelmente, presa a uma gramática de hierarquias coloniais que impedem uma verdadeira solidariedade.

A superação destas divisões não é apenas uma questão de olhar para o passado, mas de assumir a responsabilidade pelas escolhas do presente.. Embora o colonialismo tenha deixado cicatrizes profundas, a reprodução de exclusões internas também resulta de dinâmicas de poder pós-coloniais que precisam de ser desmanteladas.. O caminho para a justiça reparadora passa pela investigação séria, pela reinterpretação crítica da nossa museologia e pelo fim dos silêncios que impedem o país de compreender a sua própria profundidade histórica.