Algarve no topo: o novo mapa gastronómico do Guia Misryoum
O Algarve subiu ao palco e reclamou o topo. Pelo segundo ano seguido, o Guia Misryoum juntou a restauração nacional num retrato que, vamos ser sinceros, parece cada vez mais disperso e, por isso mesmo, mais interessante. No total, foram distinguidos 120 restaurantes, com 41 deles a receberem os cobiçados Sóis. A grande novidade? O Algarve arrecadou as duas distinções máximas, elevando o Vila Joya, em Albufeira, e o Vista, em Portimão, ao patamar dos 3 Sóis. Agora são seis os templos da gastronomia com esta classificação no país, juntando-se aos já conhecidos Ocean, Belcanto, The Yeatman e Il Gallo d’Oro.
João Oliveira, chef do Vista, não esconde o entusiasmo, embora fale com aquela serenidade de quem sabe que o caminho foi longo. São 11 anos à frente do projeto em Portimão. Ele diz que a sensação é ótima, mas insiste que o terceiro Sol é apenas o resultado de um trabalho diário, feito sem grandes pressas — ou talvez com a pressa certa, aquela que nos faz querer melhorar sempre um bocadinho todos os dias. Para o chef, o prémio não foi uma corrida. É, antes de mais, uma consequência de ter mantido a equipa focada no seu “cantinho”, longe da confusão dos grandes centros.
Do outro lado, o chef Dieter Koschina, do Vila Joya, parece ver tudo com a calma de quem já viveu várias vidas profissionais. Quando lhe perguntam sobre os três Sóis, ele recua quase trinta anos. Lembra-se bem de quando começou este nível de exigência por cá, muito antes de o guia ter regressado ao mapa português. É curioso pensar como o tempo passa — e como o reconhecimento, para ele, serve hoje mais como um combustível para a equipa do que como um troféu pessoal na estante. O prémio é uma surpresa que celebra o coletivo, diz ele.
O mapa, no entanto, não se resume ao sul. Se olharmos bem, a expansão é o que salta à vista. Com a introdução da categoria “Restaurantes Guia Misryoum” — que veio substituir os antigos “Recomendados” —, a seleção alarga-se para fora dos eixos de sempre. Estamos a falar de chegar ao Pico, à Terceira, a Leiria ou a Bragança. É uma aposta clara em cobrir o território. E, convenhamos, era preciso. A gastronomia em Portugal não se faz apenas com as luzes de Lisboa ou do Porto; faz-se também onde o produto é o rei e onde a tradição insiste em reinventar-se.
A gala, realizada no Teatro Garcia de Resende, em Évora, teve aquele ambiente clássico de cerimónia, mas com uma vontade declarada de ser algo mais. A ideia, segundo a organização do Guia Misryoum, é que a festa não fique fechada entre quatro paredes, mas que tenha esse cheiro a rua, a comunidade, a troca de ideias entre cozinheiros que acabam por encontrar ali um ponto de encontro. Enquanto os vestidos desfilam pelo palco, há uma clara tentativa de humanizar o processo, focando-se menos na formalidade e mais no prazer que é sentarmo-nos à mesa.
No fundo, o que fica desta edição é uma rede que se quer estável. O guia conta agora com 298 restaurantes selecionados ao longo de dois anos. Se o objetivo era criar um mapa para quem viaja pelo país — e gosta de comer bem, claro —, o caminho parece estar a ser bem trilhado. Ainda assim, fica sempre aquela curiosidade: o que virá a seguir? Que novos cantos de Portugal serão descobertos na próxima volta?